SOBRE

Luiz Carlos Felizardo é um fotógrafo clássico, no melhor significado que a palavra possa ter. Coerente, de organização visual refletida e sólida, ele incorpora em suas fotografias de paisagem (MIS, Av Europa, 158) muito da história da linguagem da fotografia paisagística. Trabalhando com um tema da tradição fotográfica — esquecido por milhares dos atuais fotógrafos urbanos — não esconde uma dívida para com Ansel Adams, Timothy O’ Sullivan, Minor White, Weston, mas nem por isto se apresenta como um mero repetidor de suas formalizações. Desses e de outros fotógrafos paisagísticos aproveitou o rigor na composição, a exploração de texturas, luzes e tonalidades e, principalmente, um profundo respeito pelo seu tema. Só que, ao contrário daqueles que encaravam a natureza de uma maneira mítica, religiosa, Felizardo possui uma maior naturalidade ao encarar a paisagem. Permanece um certo deslumbramento, mas devidamente controlado. A paisagem é tratada como velha conhecida, com intimidade, sem a grandiosidade dos seus mestres. Para Felizardo, tudo é muito simples, natural e belo e a fotografia reflete coerentemente sua concepção. Iluminada e silenciosa, a natureza transforma-se em paisagem próxima, possível de ser conhecida porque não há nenhum significado por trás dela.   Moracy  de Oliveira crítico de fotografia O Estado de São Paulo, 1980       A mostra "Dez Anos de Fotografia", de Luiz Carlos Felizardo, na Faculdade de Arquitetura da UFRGS, demonstra que existe, na captação visual do aparelho  fotográfico, uma dimensão que independe deste, na qual se manifesta a criatividade do operador. Parece-nos irrazoável discutir se a fotografia é ou não arte: deixaria de ser se o fotógrafo não pudesse intervir, uma vez que, então, se reduziria a fotografia a algo serviI, uma espécie de obediência visual. Ora, o contrário é o que faz ver Felizardo. É sutil demais para impor essa visão; tudo nele é sugestão, alusão, numa  palavra: metáfora. Só que Felizardo, por não ditar seu ponto de vista ao espectador, apresenta-o como dos tantos possíveis, jamais o privilegiado. Feliz de quem possui humlldade suficiente para aceitá-lo! É então que se aperceberá de sua pobreza visual, enriquecendo-se com as contribuições de um dos olhares mals poéticos que, entre nós, se exercitaram no visor. Primeiramente, demonstra FeIizardo respeito absoluto pelo aparelho. Sabe que sua máquina é uma máquina-de-ver; portanto, cumpre dar-lhe a importância que merece, como imagem e semelhança da máquina-de-ver natural: o olho. Neste sentido, ao contrário de outros fotógrafos, também talentosos, distingue-se Felizardo por uma espécie de alergia à deformação. Se quisesse, poderia deformar  para, então, formar, revelando novos ângulos da natureza. Seu temperamento, que não deixa de evocar a pureza de artistas orientais, especialmente os zen-budistas, impede-o de agir; sua in-ação termina transformando-se na ação perfeita, posto que, desse modo, consegue introduzir-se numa região óptica que nada tem de convencional. Fugindo ao expressionismo fotográfico, encontra ele o caráter extático das coisas, aquela aparência sigilosa que os objetos exibem quando vistos através de um deslumbramento controlado. Vejamos: todos podem fotografar um cemitério. Existem muitos por aí, ao pé de igrejas solitárias ou, como o de Feiizardo, debaixo de um céu imenso. Que distingue, então, o de Felizardo? Embora seja dificilimo determinar a parte de "concentração, disciplina de espírito, sensibilidade e noção de geometria" de que fala Cartier-Bresson, não há dúvida que a qualidade primordial da fotografia de Felizardo reside em sua auréola simbólica. É o cemitério uma realização que, como todas as realizações do homem, possui uma finalidade. No caso, a de acolher as cinzas dos mortos e propiciar aos vivos um lugar de encontro com aqueles. Portanto, fotografar um cemitério como se fosse um sítio à revelia de sua finadade – aqui, de ordem psicológica – é fabricar um álibi. Fotografar, porém, um cemitério dentro do círculo de significacações que o envolvem, de maneira a dar, na imagem captada, o peculiar da realidade captada, é metaforizá-la, torná-la um texto cuja leitura deverá ser feita pelo contemplador, coagido a seguir as implicações da metáfora. Mediante seu aparelho, efetua Felizardo uma leitura do visível, não, porém, em voz alta, mas sim, uma leitura silenciosa, respeitadora das leituras alheias, como se estivesse num sala (a sala do mundo) em que todos estivessem a ler. Contudo, a leitura de Felizardo é de uma lúcida cumplicidade com as coisas, ao contrário das demais leituras que não são participantes. Por isso, o fotógrafo Felizardo não só descobre, mas descobre-se, pois, ao mesmo tempo em que expõe sua máquina às impressões do visível, se expõe, impregnando seu aparelho de uma certa ternura. Sua visão mediadora acaba sugerindo a de alguns mestres da pintura, em especial a de autores de naturezas-mortas. Com uma diferença: substitui Felizardo a composição por uma sorte de de-composição em que revela uma ordem maior, fragmentada em estilhaços vivos. Há qualquer coisa de uma lição ética nesse exercício. Ou, até, qualquer coisa de místico. Semelhante processo subliminalmente ordenador prefere constatar, ao invés de propor, uma ordem. Voltemos ao cemitério de Santa Bárbara: nessa fotografia magistral, datada de 1974, o que se descobre não é tanto um espaço, mas um espaço emocionalizado, erguido à altura de um mito. Felizardo não chegou a isso por acaso; nem as nuvens, que cobrem o céu de sugestões, estão lá por acaso. Dois pormenores elucidam a dimensão mítica desse réquiem visual: a cerca, quase invisível, do primeiro plano, a evocar o limite da morte; e o trator, ao fundo, com sua nuvem de pó a lacerar microscopicamente a placidez litúrgica da paisagem, adicionando-lhe um sopro de esperança: o do grão que morre para ressucitar. Foi preciso esperar, espreitar o bom momento, aquele em que a emoção do artista coincide com a aparente indiferença da natureza. Como um hábil ceramista, Felizardo modela também suas fotos, ciente de que essa modelagem dura segundos, e pode desaparecer de uma vez para sempre. Para sempre? Não creio que ele pense assim; quem é capaz de criar fotografias de tão sereno classissismo, sem com isso privá-las de certo arrepio lírico e, cá e lá, de certa turvação crítica, parece estar persuadido de que a natureza se repete ciclicamente, e que é mister paciência para imobilizá-la num de seus momentos gloriosos ou, ao menos, de comunhão com a psique humana. Esquivando a ênfase, contrastes e fetichismos visuaIizadores e temáticos, logra Felizardo produzir no espectador uma autêntica alegria de ver, ao mesmo tempo em que faz apóstrofes delicadas aos distraídos, aqueles que andam pelo mundo sem tempo para tocá-lo, não só com as mãos, mas também com o olhar.   Armindo Trevisan poeta e crítico de arte publicado no “Correio do Povo”, Porto Alegre, Maio de 1980         Luiz Carlos Felizardo abafa com sua competência, abafa com sua visão fotográfica. Quantas zonas teria mesmo o famoso sistema de zonas de Ansel Adams? Seriam dez zonas? Não contei todos os cinzas felizardianos, mas o seu mundo, cinzelado com precisão, estende-se em camadas feitas de cores (cinzas), volumes, texturas. Natureza e técnica frente a frente. E emoção também. Imagens perfeitas, mas não frias. Todos os elementos são selecionados e ordenados na superfície do negativo (Felizardo trabalha com os formatos grandes 4"xS" e 8"x10" e as cópias são feitas na sua maioria por contato).Todos os elementos são necessários, nada é supérfluo. E se você encohtrar uma folha solta na imagem é porque foi ela que prendeu a atenção do fotógrafo. E a sua também. É um mundo onde as sombras brotam das árvores para misturar-se com os grãos de terra, com os grãos de prata. Felizardo, poeta da cor cinza: preciso, exigente, brilhante. Os seu cinzas brilham também.   Stefania Bril crítica de fotografia Revista IRIS, São Paulo, 1986     SOBRE A FOTOGRAFIA DE LUIZ CARLOS FELIZARDO   Este grupo de imagens é uma pequena síntese do trabalho  desenvolvido por Luiz Carlos Felizardo, uma das poucas unanimidades da  fotografia brasileira contemporânea. Um trabalho sutil e refinado, que transcende a questão da representação fotográfica e aponta para a técnica apurada, a percepção minimalista do espaço e uma forte preocupação estética. Uma fotografia em que a expressão poética e a reflexão sobre a passagem do tempo inviabilizam qualquer análise imediatista e apressada. "Não mais representar o  visível,  mas tornar visível", escreveu Paul Klee. As fotografias de Felizardo têm uma força catalizadora capaz de insinuar estimulantes viagens para o leitor — e um componente de estranhamento perturbador. Centenas de  pequenas informações distribuídas num enquadramento preciso, numa luz  estudada, conduzidas por uma sintaxe intrigante. Uma fotografia conceitual, de  parábolas visuais, onde o fotógrafo investiga formalmente o espaço e o tempo. O clássico silêncio da monumentalidade da paisagem, a tensão criada pelo olhar meticuloso,  antecipam a participacão do receptor,  na medida em que possibilitam inúmeras leituras. É tentar descobrir o invisível no espaço criado para a  reflexão, articular um pensamento no labirinto de meios-tons do preto e branco. Com talento e habilidade,  ele criou, na variedade de sua obra, um conjunto consistente de  imagens — onde é possível  perceber que a estrutura definidora da composição nasce de sua intimidade com o desenho, do qual ele se apropria como a forma fugaz que antecede a fotografia. Felizardo  estabelece uma intrigante relação de linhas e forças, de luzes e sombras, que deixa clara sua condição de atento observador das circunstâncias. Sua fotografia em 35mm traz, como grande surpresa, o acaso  — que, somado à experiência e sensibilidade do fotógrafo, produz o prazer instigante de estar diante de uma imagem desconhecida.  Como escreveu Borges, “o que chamamos de  acaso é o nosso desconhecimento do mecanismo da casualidade". Ele elabora uma proposta estética para esse formato, e a linguagem é dominada com a liberdade e a intuição do artista experimentado. As similaridades formais, as relações intrínsecas que surgem após a imagem impressa no papel, e todas as outras possíveis conexões, mostram que a fotografia de Felizardo se extende além dos limites da linguagem e da técnica. Com um procedimento técnico e estético impecável,  Felizardo retoma e articula a "fotografia realista",  criando uma concepção de trabalho singular para a fotografia brasileira e dando uma contribuição inestimável para a produção contemporânea.   Rubens Fernandes Junior pesquisador e crítico de fotografia publicado em JOGO DO OLHAR, Museu de Arte de São Paulo — MASP, 1994     Luiz Carlos Felizardo, de Porto Alegre, sul do Brasil, construiu, a partir de seu próprio ambiente, o trabaIho de paisagem, urbana e rural, mais importante da fotografia brasileira contemporânea.   Rubens Fernandes Junior publicado em Brasilianische Fotografie, Kunstmuseum Wolfsburg, 1999     Não sei que tribo ou grupo cultural árabe proíbe a fotografia. Eles têm toda razão. A fotografia é uma coisa aterrorizante. É algo que se vê num pedaço de papel, mas que foi arrancado misteriosamente de alguma coisa. Não é como um filme, que tem som e movimento para nos enganar ou seduzir. A fotografia está ali, dura, parada, nos encarando, sem pedir nem dar concessões. E está em toda parte. Olhe para o lado neste momento e você estará vendo uma fotografia. De qualquer coisa. Há alguma conspiração nisso. Os poucos estudos que existem a respeito da fotografia indicam que há algo escuso por aí, algo misterioso e mal explicado. Vejam o livro do Felizardo, O Relógio de Ver. (O Felizardo é um deles. É fotógrafo, dos mais perigosos. Luiz Carlos Felizardo, mestre do preto-e-branco.)   O livro do Felizardo é um objeto de uma pureza espectral, duro e brilhante como suas fotografias. E o texto é enxuto, surpreendentemente elegante e filosófico, com certeza para mostrar aos escritores como é que se escreve. Ou como é que os fotógrafos escrevem. Esse livro deve ser investigado atentamente. Ele tem algo de subversivo. É uma prova da conspiração. Ele indaga coisas. Ele busca explicar o olhar. Remember Pessoa: “De quem é o olhar que espreita por meus olhos?”. Felizardo com certeza sabe, ele é um dos demiurgos da conspiração. Ele sabe, como Drummond, que “uma coisa são duas – ela mesma e sua imagem”. Às vezes, eu sinto falta de pedaços da minha alma. Atrás da câmera, o ladrão de almas dá seu enigmático sorriso.   Tabajara Ruas escritor e diretor de cinema publicado em ZERO HORA 2000       Felizardo é um fotógrafo de reconhecida capacidade.  Autor de trabalhos importantíssimos (suas fotografias das Missões, por exemplo, são antológicas), tem obras nos acervos do Brasil, da Argentina e de Cuba. Além de grande fotógrafo, Felizardo é um intelectual devotado à arte da fotografia como talvez nenhum outro.  Dono de uma grande biblioteca sobre o assunto, tornou-se ele próprio uma referência a acadêmicos, pesquisadores e diletantes ao publicar, no ano passado, o livro O Relógio de Ver. O conhecimento e a experiência que acumulou estarão à disposição dos leitores de APLAUSO na seção Imago, que estréia nesta edição.   Eugênio Esber editor-chefe da revista APLAUSO publicado em APLAUSO, março de 2001     A revista chegou hoje.  Ainda nem terminei de ler e já estou feliz em saborear um texto de alta qualidade como o do Luiz Carlos Felizardo.  Segurança de conceitos, vivência vitoriosa na área, trabalhos referenciais. É o homem certo para falar de fotografia na Aplauso ou em qualquer outra publicação nacional. É um avanço substancial para a revista. Há muito a discutir neste primeiro artigo de Felizardo, pois ele aborda várias questões essenciais: a morte do pensamento reflexivo nos veículos de comunicação; o ódio à percepção hierarquizada, como se o genérico fosse a solução “democrática"; a ofensa que a qualidade do artista suscita; a entronização da futilidade através das colunas socials; a arte como realidade ficcional, e mais tantos e tantos temas.  Parabéns. Jacob Klintowitz crítico de arte publicado em APLAUSO       […] Contudo, se não ousarei qualificar Felizardo de “o maior fotógrafo gaúcho da atualidade”, arriscar-me-ei a ir ainda mais longe, ousando inscrevê-lo entre os melhores fotógrafos brasileiros de todos os tempos, ainda que essa seja uma ousadia que, como diriam os franceses, n’en est pas une. É conhecimento de causa, visto que a obra de Felizardo resiste a qualquer critério de análise, seja tanto sob o ponto de vista técnico, quanto do estético. É uma obra na real acepção da palavra, laboriosamente construída ao longo de décadas e predestinada a permanecer por muitas outras décadas mais, em virtude da carpintaria perfeita e da total representatividade – tanto do próprio indivíduo que a criou, seja de sua região, de seu país e do meio de expressão artística que elegeu como prioritário.   Pedro Afonso Vasquez escritor e fotógrafo publicado em A Fotografia de Luiz Carlos Felizardo abril de  2011